Na vastidão da memória
após décadas e décadas de vida
as coisas começam a se distanciar
e, depois, lentamente, a se afastar
das palavras, um dia tão coladas
umas às outras, por assim dizer
uma coisa só. Estranhezas começam
a crescer, a crescer, criando
vazios, incômodos vazios
que se alastram além da conta.
Insatisfeito, porém, o olhar interior
não se dá por vencido. Como se batesse
em si próprio, retorna às velhas coisas
e aos velhos lugares. À medida
que se aproxima, a clareza
em pedaços se põe a juntar-se
– e não é, isso, um milagre!
A palavra começa a voltar
e, de repente, entrega-se
com a velha nitidez, quase óbvia.
As coisas e lugares voltam
a ter nome. O que parecia perdido,
não estava, apenas se escondia
assim como, no jardim, uma criança
entre plantas e flores se esconde
de outra. O rio volta a correr
para o mar e nem é preciso sair
de onde se está.